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Torcedores de Remo e Paysandu superam rivalidade e se unem em movimento pró-democracia

Grupos de azulinos e bicolores ultrapassam o futebol e se mobilizam nas redes sociais contra preconceito a minorias, racismo e movimentos antidemocráticos na sociedade

Torcedores de Remo e Paysandu superam rivalidade e se unem em movimento pró-democracia Torcidas antifascistas de Remo e Paysandu fazem ações conjuntas — Foto: Reprodução Notícia do dia 01/06/2020

Da Redação

Belém/PA - A gigantesca rivalidade entre Remo e Paysandu fica de lado quando grupos de torcedores bicolores e azulinos decidem unir forças para ações públicas e/ou virtuais em defesa daquilo que acreditam ser o princípio fundamental para uma vida melhor em sociedade: a luta contra qualquer tipo de opressão a minorias. As duas torcidas se conectam no que consideram, em sua essência, a luta antifascista, e vêem futebol e política como assuntos totalmente associáveis.

 

Grupos autodeclarados antifascistas têm se formado ao redor do país e ganharam notoriedade após protestos protagonizados neste domingo (31) na Avenida Paulista, em São Paulo. Na ocasião, torcedores de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos protestaram lado a lado em defesa da democracia. Houve confronto com apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e a PM.

 

Nos últimos meses estes grupos têm reconhecido uma escalada de movimentos autoritários no Brasil e apontam, como principal representante, o atual Presidente da República, que rotineiramente participa de atos que têm como bandeiras o fechamento do Congresso Nacional e do STF e exaltam a ditadura militar.

 

- A democracia está ameaçada desde a eleição da chapa Bolsonaro/Mourão. Eles representavam o retrocesso, discurso de ódio contra os setores que sofrem opressão, exaltação a torturadores. Hoje, temos o aprofundamento disso, o descaso com a vida da população durante a pandemia, desrespeito com profissionais da imprensa, ameaças direta de fechamento das instituições democráticas -- argumenta Midi Flores, membro do PSC Antifa - Frente 1914.

 

A torcida antifascista do Remo segue a mesma visão e aponta que muitos movimentos autoritários e antidemocráticos também têm como prática o preconceito racial e de gênero, não aceitam a diversidade de pensamentos e de estilo de vida.

 

- São pessoas que não escondem mais seu preconceito, ao contrário, o exibem com orgulho e a todo momento atentam contra a democracia e suas instituições, como o Congresso Nacional e o STF. É inadmissível que um chefe do Executivo apoie o fechamento destas instituições, mas ele o faz abertamente e nada acontece -- argumenta Thiago Braga, da RemoAntifa

 

"É preciso lutar pela democracia brasileira, sob pena de voltarmos a uma ditadura militar, onde entrevistas como essa seriam censuradas", prossegue Braga.

 

Apesar da preocupação e das críticas ao presidente Bolsonaro e seus apoiadores, em razão da pandemia os dois grupos antifascistas paraenses ainda não cogitam protestos físicos em Belém.

 

- Observamos com muito apreço todos [os protestos] e nossa vontade genuína é de estar nas ruas nos somando a eles. No entanto, conforme nota que emitimos na semana passada, entendemos que o momento é delicado, por conta da pandemia global. Belém está com seus leitos de UTI lotados e seria uma irresponsabilidade de nossa parte gerar aglomerações nesse momento. Mas no futuro é possível, sim -- afirma o torcedor azulino.

 

Não são torcidas organizadas

No Pará, as torcidas antifascistas já existem há alguns anos e têm ganhado mais membros devido à crise política do país e ao crescimento do autoritarismo ao redor do mundo. Estes grupos, no entanto, não se consideram torcidas organizadas.

 

- É um movimento de pessoas que combatem as opressões machistas, racistas, lgbtfóbicas nos estádios e na sociedade; lutam por justiça social e contra o futebol moderno e têm a paixão pelo Paysandu como elemento de conexão. Somos em torno de 70 pessoas. Mas há muito mais torcedores e torcedoras com esse perfil que nos acompanham e interagem nas redes sociais -- explica Flores.

 

Há uma forte aproximação entre as lideranças dos dois grupos e várias ações conjuntas já foram realizadas, também em parceria com outras instituições representativas, como a Comissão de Direitos Humanos da OAB/PA.

 

-- A RemoAntifa foi criada em 2015 por um grupo de torcedores do Remo e não se identifica como uma torcida organizada, mas sim um movimento social suprapartidário. Nós fazemos ações voltadas à conscientização política e social da população, em especial o torcedor de futebol, por meio de eventos de formação, seminários etc. Além disso, também organizamos e compomos manifestações de rua que lutam por direitos civis, como foram no ano passado os Tsunamis da Educação, por exemplo -- completa Braga.

 

Futebol x Política

A introdução de assuntos políticos no meio futebolístico não é algo novo - vide a Democracia Corintiana, que vigorou de 1982 a 1984. Mas ainda há críticos desta visão, que consideram o esporte um ambiente de entretenimento e paixão sem "ideologia".

 

- Futebol é política também. Não à toa o Bolsonaro usa camisas de clubes de Norte a Sul do Brasil. Isso é um apelo a paixão do povo brasileiro pelo esporte. A articulação para o retorno dos jogos para forjar uma normalidade enquanto quase 30 mil brasileiros perderam a vida é um uso político do futebol. A direita sempre usou e sempre houve resistência também. Não deixaremos que discursos rasos façam com que as pessoas não percebam as relações. Futebol é política e estamos disputando esse jogo -- explica o bicolor Midi Flores.

 

Já Thiago Braga relembrou que o objetivo do movimento antifascista azulino é, também, conscientizar os torcedores com direito e deveres em sociedade.

 

-- Nós desconstruimos essa narrativa [que futebol e política não se misturam]. O futebol é um movimento popular de grande apelo social, em especial no Brasil, que movimenta as massas. Dentro das torcidas existe todo tipo de diversidade e a política é inerente ao ser humano. É impossível dissociar uma coisa da outra. O futebol tem o poder de transformar a sociedade, assim como a política. E conscientizar os torcedores é preciso, para que o preconceito seja abolido das arquibancadas -- concluiu o remista.

 

Fonte: GE Pará